Infectologista alerta: risco de surto de sarampo chegar ao ES é alto
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A confirmação de 677 casos de sarampo no país e de outros 2.724 sendo investigados, traz à tona a ameaça de o vírus voltar a circular no Espírito Santo. “O risco da doença chegar é alto”, destaca o infectologista Lauro Ferreira Pinto. E, para deter o avanço, somente a vacinação adequada.

Para o pediatra Ronaldo Ewald Martins, membro da Comissão Nacional de Sarampo do Ministério da Saúde, o Espírito Santo está em uma rota que não será difícil aparecer alguém contaminado e, por essa razão, é tão importante vacinar as crianças, em geral mais vulneráveis diante da doença.

Lauro observa que o aparecimento do sarampo em outros Estados – Amazonas, Roraima, Rondônia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul – é um indicador da queda na cobertura vacinal que, para o caso de sarampo, deve ser de 95% das crianças de 1 ano. O Estado também está abaixo da meta (86,18%), o que favorece a introdução do vírus do sarampo em território capixaba.

“Estamos experimentando uma queda na cobertura há alguns anos, o que abre as portas para a reintrodução de doenças. Houve uma quebra de guarda; as pessoas deixaram de cuidar com carinho de sua carteira de vacinação”, avalia Lauro.

“Não há outra forma de proteção que não seja pela vacina. Esse quadro do sarampo serve de alerta. Hoje é essa doença, amanhã pode ser a paralisia infantil. Não podemos deixar isso acontecer”, acrescenta o médico.

Na avaliação de Paulo Peçanha, infectologista e professor do curso de Medicina da Ufes, o risco de o sarampo voltar ao Estado é real. “Por não termos atingido a cobertura ideal, a preocupação se justifica”, aponta.

Peçanha ressalta o fato de o sarampo ser uma doença de fácil transmissão, por meio de tosse, espirro e até da respiração. Outra característica é que, nos primeiros dias, apresenta sintomas semelhantes a de outras doenças, como febre alta e dor de cabeça, e apenas por volta do quarto, quinto dia da infecção que surgem as manchas vermelhas. Nesse período, a pessoa infectada já pode ter contaminado muitas outras que estão no seu convívio.

“Por isso o sarampo se espalha tão rápido”, explica Peçanha. O médico recomenda que as pessoas procurem as unidades de saúde para se imunizar, caso o cartão de vacinação não esteja em dia.

A gerente estadual de Vigilância em Saúde, Gilsa Rodrigues, destaca que o Estado tem estoque da vacina para atender o público que procurar os postos, inclusive para adultos, desde que a demanda seja somente de quem ainda não foi imunizado. “Não precisa haver correria, nem fazer filas nos postos. Basta seguir o calendário de vacinação”, orienta.

BLOQUEIO PARA EVITAR CASOS

O Espírito Santo não tem, até o momento, nenhum caso suspeito de sarampo, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Se porventura surgir, existe um esquema de bloqueio para evitar que a doença se espalhe.

É o que afirma Gilsa Rodrigues, gerente estadual de Vigilância em Saúde. Ela conta que, quando há notificação de caso suspeito de doenças imunopreveníveis, como o sarampo, rapidamente as equipes de vigilância fazem um cerco à área por onde a pessoa infectada passou.

“Vamos procurar no entorno dela, identificar na família, na escola, no trabalho alguém que não possui o esquema completo de vacinação e, então, dar a vacina. Se viajou de avião, buscamos a informação até de quem estava no voo para também ser imunizado”, exemplificou.

Além disso, a pessoa doente também deve ficar isolada enquanto houver risco de transmissão, em geral por 10 dias.

“O fato de não ter registro da doença demonstra que existe um bom trabalho, mas a gente precisa continuar tanto ampliando a cobertura de vacinação das crianças quanto nos bloqueios em eventuais casos suspeitos”, finaliza.

CONSELHO: DADOS ESTÃO DESATUALIZADOS

A baixa cobertura vacinal em 53 municípios do Estado pode ser reflexo de uma mudança no sistema de informação criado pelo governo federal para inserção dos dados de imunização.

Presidente do Colegiado de Secretários Municipais de Saúde do Espírito Santo (Cosems-ES), Andreia Passamani Barbosa Corteletti, sustenta que os indicadores não correspondem à realidade de muitas cidades pois, segundo ela, os dados estão desatualizados no sistema. Andreia Passamani acrescenta que o problema está na forma de alimentá-lo, o que tem criado distorções por aqui e em outros Estados.

A gerente estadual de Vigilância em Saúde, Gilsa Rodrigues, observa que o sistema é importante porque foi informatizado, possibilitando que a consulta sobre o esquema vacinal de uma pessoa seja consultado em qualquer parte do país onde seja atendida.

Contudo, ela reconhece que há queixas e, para discutir esse e outros assuntos relacionados à imunização, um encontro foi marcado para o início do próximo mês. “O mais importante, porém, para nós e os municípios, não é o sistema. A prioridade é a vacinação das pessoas.”

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